Começo essa conversa trazendo a ideia de primeiro cuidar do que o corpo precisa, pra depois pensar nos “elementos extras” de vitalidade.

Quero que você crie essa imagem do corpo-terra. Se o solo não está fértil, trazer um ou outro elemento, por mais potente que seja, não será suficiente. Vai precisar de nutrientes sim, de rega, de sol, de cuidado e atenção às necessidades, às pragas que surgem, aos brotos que aparecem.

Eu sei, seria lindo ter pílulas mágicas, ou práticas energéticas, que extrapolassem essa demanda, e a gente pudesse tomar e riscar da lista de tarefas, sucesso, seguir com a vida. E é claro que existem alimentos especiais, ervas, fórmulas e até mesmo suplementos que atuam nesse lugar de potência. Mas nada disso substitui cuidar do solo, do corpo-terra.

(Digo “até mesmo suplementos” porque sigo surpresa com a ideia dos “suplementos” – via de regra, substâncias que deveríamos ingerir pela alimentação, componentes essenciais do corpo, que trazem prejuízos na falta. Mas, dificilmente irão provocar uma grande mudança no corpo, uma grande resposta terapêutica, pois não são fármacos, não fazem essa “ativação” de resposta do corpo. Nutrientes apoiam o corpo a realizar suas funções, não mudam as funções.)

Essa perspectiva de não deixar o corpo com sintomas pendurados, e atender as necessidades, já é muito distinta da perspectiva de saúde da nossa cultura e sociedade. E que fique claro, essas necessidades irão variar para cada pessoa, à cada momento, fase de vida, e até a cada dia. O refinamento é infinito, mas fique tranquila que talvez a gente não precise de tanto.

E eu tenho certeza que você consegue se relacionar com isso. Porque vitalidade é justamente aquilo que transborda. Ela acontece quando a gente sobe a régua, nutre e cuida tanto que começa a brilhar. Quando a gente tem para doar. SPOILER: você já se sentiu assim transbordando de potência e energia, e com o humor meio pra baixo? A mente confusa? Será que é possível essa potência do corpo, com mente e emoções desorganizadas?

Uma das formas mais simples e mais negligenciadas de cuidar do corpo-terra é o descanso. E que fique claro, descanso não é sedentarismo. Não é coisa de gente preguiçosa. Tudo na Natureza descansa pra se nutrir e regenerar. E acredito que mesmo uma pessoa sedentária vai se beneficiar de aprender a aquietar, com intenção. Porque descansar, aquietar e entrar em relaxamento não é o mesmo que embotamento e peso.

Aquietar é importante porque o turbilhão emocional e da mente são o principal fator de adoecimento – segundo as medicinas tradicionais. Em resumo: a mente e as emoções desorganizadas pesam tanto ou mais na sua saúde do que grandes ajustes de estilo de vida.

Acho interessante ver como isso é verdadeiro olhando pra nossa sociedade atual. Dominamos, nos últimos 70 anos, uma alta tecnologia aplicada à saúde, e ainda assim as pessoas seguem adoecendo. Temos números cada vez mais expressivos de sofrimento psicoemocional, sendo o Brasil um líder nesse quesito: somos os maiores do mundo em ansiedade, e os maiores na América Latina em depressão.

As Medicinas Tradicionais Chinesa e Ayurveda afirmam que o impacto na saúde das emoções e da mente desorganizadas é maior do que o do estilo de vida. E você aí preocupada em formar músculos, cheia de angústias e aflições…

Existem muitos caminhos na ciência para explicar a relação entre os estados psicoemocionais e o corpo, seja pelos eixos neurológicos, ou por teorias mais novas que vão falar do nervo vago e toda aquela história da conexão do Sistema Nervoso com as vísceras. Sabemos que o estresse que vem do âmbito psicoemocional vai gerar uma cascata de inflamação e outras respostas metabólicas, que são nocivas e geram sobrecarga no corpo.

Na Medicina Chinesa temos uma visão mais simples, ainda que de maior complexidade. A sua atividade digestiva, sustentada pelo Sistema do Baço e Estômago, é tão Yang quanto a Força do Pensamento, sua capacidade lógica de resolver problemas, que é apoiada pelo mesmo Sistema corporal. Ou seja: tanto faz se o seu desequilíbrio é na digestão ou nos boletos pra pagar, um desequilíbrio vai aumentar o outro. Na verdade, o que essas Medicinas dizem, é que é provável que você tenha tantos problemas para resolver que isso acabe enfraquecendo sua capacidade digestiva. E é assim para todos os Cinco Sistemas corporais e suas respectivas funções psicoemocionais.

Por isso, é importante que você encontre as suas formas de ancorar a mente no corpo, podendo se organizar na mente e emoções a partir da presença no corpo. Você pode praticar recursos mais introspectivos, como a meditação, ou mais ativos, que criem uma âncora de movimento, como uma prática de respiração, os movimentos corporais energéticos (Yoga, Qi Gong, Tai Chi, práticas somáticas). Ou quem sabe ainda, artes manuais, brincadeiras, aquelas coisas que você faz só por fazer, sem ser por “aprimoramento”, sabe?

Talvez você possa tirar uns minutos agora, no término dessa leitura, pra pensar que recursos desses você já tem à mão, que te apoiam a sair um pouco da mente e chegar mais no corpo, experimentar esse relaxamento do pensar e sentir. Quem sabe você pode fazê-lo por 2-3 minutos agora mesmo, talvez 3 respirações profundas sentindo o abdômen com as mãos?