O que significa isso vindo de uma mulher brasileira, naturopata, terapeuta das medicinas orientais e doutora em neurociências?
Cada vez mais vejo, no acompanhamento das pacientes e na minha própria vida, a importância da gentileza pro cuidado de si e para refinar alimentação, estilo de vida, rotinas e hábitos.
Minha regra de ouro: uma coisa por vez, no máximo duas.
Essa nossa conversa parte das culturas orientais (China, Índia) e suas diversas práticas de autocuidado inseridas no cotidiano das pessoas e famílias, em ressonância com as suas Medicinas Tradicionais.

Fundamentada no patriarcado -fragmentado, racional e pragmático, onde os fins justificam os meios- a nossa sociedade não tem tempo pra cuidar. Quer logo meter um remedião, silenciar o desconforto, seguir em evidência e produzindo.
E nessa mesma toada, a gente topa tudo:
- Topamos fazer um detox super restritivo por 7 dias – pra depois voltar pro corre do dia a dia da mesma forma de antes
- Topamos tomar shake de pó e cortar gluten e lactose – substituindo por outros produtos igualmente empacotados, enzimas empacotadas, ao invés de olhar criticamente pra alimentação e pra como o corpo responde
- Topamos um shot de cúrcuma toda manhã – ao invés de nos conectar e sentir o que o corpo pede em cada fase
- Topamos aliviar sintomas da menstruação e transição da menopausa – apenas para seguir trabalhando e produzindo no mesmo ritmo (o patriarcado manda um ‘oi’ pra terapia hormonal)
- Topamos sustentar tudo do mesmo jeito – se sujeitando aos padrões de corpo, rotina, relações e vida
Essa é a nossa realidade. Com camadas robustas de misoginia atravessando o autocuidado, sem mencionar as perversidades de classe, acessos e direitos.
Eu conheci o Ayurveda na faculdade de Naturologia, em 2005, e fiquei encantada! Fui estudar mais, viajei pra Índia, e já no fim de 2006 estava trabalhando na clínica do meu professor. Mais tarde, formei terapeutas e dei aula de Ayurveda na universidade.
O Ayurveda tem essa beleza da rotina diária, das práticas de autocuidado, de ir pra cozinha fazer remédios e óleos. Mas essa beleza é uma faca de dois gumes – porque é fácil ela virar mais uma cobrança: fazer isso, fazer aquilo, seguir a rotina perfeitamente.
Fica a impressão de que a prática do Ayurveda é só isso: rotina, alimentação, detox e cúrcuma. Só que não. Lá na Índia tá mais pra remédio em comprimido e tratamento de internação.
Aqui no Ocidente -onde explodiu a quantidade de “influencers” e conhecedores de Ayurveda- vejo uma pressão enorme pra adotar mil práticas de rotina, restringir alimentação…
Como se o cuidado fosse uma lista de tarefas, e a falta dele, uma falha só sua.
Eu mesma, quando comecei a trabalhar com Ayurveda, passava um monte de coisas da rotina diária e alimentação pras pacientes.
Queria que elas tivessem recursos, aprendessem, afinal acredito profundamente na educação em saúde. Elas adoravam! E até experimentavam algumas coisas, começavam a fazer… Mas raramente sustentavam as mudanças. Faziam panchakarma (aquele tratamento de purificação bem intenso do Ayurveda) e um tempo depois a maior parte do autocuidado se perdia.
E, sendo honesta, eu não praticava nem 20% do recomendado, naquela época. Até porque é muito fácil “se cuidar” quando você é jovem e/ou não tem grandes desconfortos e desequilíbrios de saúde.
Aprendi que: não é falta de força de vontade, nem é responsabilidade só da pessoa.
Veja, eu celebro o autocuidado como fundamento da saúde – cultivar vitalidade passa por isso. Ele é mesmo a base, e entendo porque a “rotina diária” aparece no primeiro capítulo dos livros clássicos que ensinam o Ayurveda.
Mas será que a gente está nesse momento da base?
A verdade é que não estamos sozinhas, desconectadas da nossa cultura e sociedade, do nosso tempo, das pessoas à nossa volta. De tudo que vem com isso.
Nós mulheres somos capazes de cuidar de muitas coisas ao mesmo tempo. A gente já faz isso, em excesso, em sobrecarga.
Será que faz sentido transformar sua saúde em mais tarefa e sobrecarga?
Ou será que é um caminho melhor cuidar de uma coisa bem de perto, manter uma segunda em uma órbita um pouco mais afastada, e deixar uma terceira no seu campo visual periférico, bem longe da lista de tarefas?
Depois que me tornei mãe e enfrentei desafios das mais variadas naturezas -no corpo, na mente, nas emoções, na rotina, no tempo, no trabalho e nas relações- o autocuidado tomou outra dimensão. E, graças às Deusas, foi nesse momento que comecei a resgatar saberes e fazeres do feminino em essência.
Uma dessas sabedorias é que: assim como liberamos um óvulo por ciclo, cuidamos de perto de uma coisa por vez. No máximo duas. Isso é harmônico.
Outra sabedoria: é com prazer que criamos. Tudo o que você fizer a partir do prazer, tende a florescer e frutificar.
Eu aprendi com o tempo que o cuidado precisa ser gentil comigo mesma. E precisa ser aos poucos. Tudo o que eu não preciso é de mais pressão. E nem você.
É por isso que hoje, na construção desse cultivo de saúde com as pacientes, a gente entende juntas quais são os cuidados e práticas que dá pra manter mais perto. E lembramos que tem experimentação, e tem mudança também.
Se permita respirar agora.